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Reflexões sobre o Papel Social da Poesia: Platão x Aristóteles

A discussão acerca das artes, de um modo geral, é algo que discorre por toda a história humana, tendo boa parte de seus debates iniciados no período clássico – entretanto, sabe-se que a divergência entre filósofos e poetas é antecedente. Nesse período, a palavra Literatura ainda não existia, porém suas formas iniciais já estavam sendo tratadas por dois grandes pensadores da época: Platão e Aristóteles. O primeiro, é bastante crítico à poesia, ele a considera muito distante da realidade, pois seria uma mera imitação da mesma e por isso não seria boa para a formação de um homem virtuoso. Aristóteles, seu aluno, em oposição, diz que a imitação é boa, pois é fonte de prazer e conhecimento. O estudo desses dois filósofos atingiram patamares impressionantes, influenciando a civilização até os dias de hoje, entretanto os mesmos não encerram a complexidade da literatura.


O pensamento Platônico compreende que a arte reproduz cópias do mundo sensível que por sua vez já são uma cópia do mundo das ideias. Ele considera as imitações poéticas nocivas ao espírito de quem as ouve, considera os artistas criadores de “verdades”. Ele discorre sobre a questão da formação de bons homens, na qual está ligada à poesia e aprofunda seu pensamento quando diz que o problema está mais especificamente no que ela diz e como ela diz. Platão, em primeiro momento, bane poetas, artistas e sofistas de sua cidade ideal, porém, posteriormente os admite, por sua efetividade pedagógica, com a condição de se submeterem aos filósofos.


O pensamento Aristotélico, segundo a Poética, diz que a imitação é inata ao homem. Neste ponto, distinguem-se os humanos de todos os outros seres vivos: por sua aptidão muito desenvolvida para a imitação. Pela imitação a pessoa adquire os primeiros conhecimentos, e nela experimenta o prazer. Ele propunha que a tragédia fosse representada por atores que, através de emoções, promoveriam um impacto purificador (catarse), diz ele na Poética: “É pois a tragédia, a imitação de uma ação de caráter elevado, completa e de certa extensão, em linguagem ornamentada e com várias espécies de ornamentos distribuídos pelas diversas partes do drama, imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores, e que, suscitando o terror e a piedade, tem por efeito a purificação dessas emoções.” (1449b 24-27).


Introduzo agora algumas reflexões sobre o tema e, por fim, um desabafo acerca do cenário social contemporâneo, no qual está ligado, segundo meu entendimento, diretamente com o tema. Terei como base meus estudos e minhas convicções filosóficas.


Platão tinha grande preocupação com o que era dito – uma vez que os poetas eram tidos como mestres—pois entendia que o problema não era contar estórias ficcionais, mas sim contar estórias que levem as pessoas a se distanciarem do bem. Aristóteles, ampliando o debate vai dizer que a poesia tomou diferentes formas, com as diversas índoles particulares dos poetas. Os de mais alto ânimo imitam as ações nobres, os de mais baixas inclinações voltaram-se para as ações ignóbeis. Não obstante, ele afirma que o belo está no homem, é uma fabricação deste. Diante dessas exposições, não almejo a conciliação, apenas, por enquanto, viso a extração de uma ideia básica que vejo escassa nos tempos atuais: analisar racionalmente a realidade. Uma vez que vejo um debate partidário sem a concepção da busca pela realidade, quero, antes de desabafar, fazer dois questionamentos acerca de Platão e Aristóteles:


1) Do que vale o prazer poético quando este induz ao mal, a injustiça ou a mentira?
2) É válido ensinar a partir de bons exemplos, quando no mundo há toda espécie de conduta?


A falta de resposta para essas questões culmina na sociedade contemporânea, os bons poetas foram expulsos da minha cidade e na maioria das vezes só tenho a imitar os homens baixos. A filosofia pós clássica e quase tudo que se sucedeu até hoje está em crise, mais especificamente as pessoas estão em crise. Uma vez que a imagem parece ser de polarização, quando olhadas de perto percebe-se que há na verdade uma grande fragmentação de pensamentos sedentos e desesperados. Estes estão confusos, pois lhe são inatos a busca pelo bem, entretanto o bem foi relativizado. As pessoas não se compreendem, pois não reconhecem uma verdade sobre si mesmas, estão agarradas ao sentimentalismo pós metafísico. Voltou-se à caverna, trancou-se às correntes e não se consegue usar à razão, escapar ao subjetivo, somos escravos das opções, restritos à sombra e à matéria, envergonhados pela possibilidade do real não estar no corpo, sem coragem de investigar o primeiro mover, o início, a porta de saída, coagidos pelo orgulho, vaidade, olhares e vozes daqueles que também morrem de medo de encontrarem dentro de si algo que foi abandonado a muito tempo, mas que sempre esteve ali, sufocado pelas paixões, mas aguardando o dia do encontro, neste, quem sabe, o corpo reconhecerá o bom, a alma a beleza, o espírito a verdade e assim o intelecto estará voltado para a realidade. Me parece que Platão e Aristóteles são na verdade, não paradoxais, mas uma dicotomia faltante para se solucionar o enigma literário.

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