Pular para o conteúdo principal

Breve análise do Livro de Linhagens e do Auto da Barca do Inferno - Conde D. Pedro e Gil Vicente


Livro de Linhagens


Os Livros de Linhagens constituem um documento de relações genealógicas de membros de famílias nobres, porém, os mesmos não se reduzem a essa função. O impacto das narrativas no imaginário popular – social, cultural e histórico - inserem marcas nas pessoas, mais especificamente, a narrativa mítica, por exemplo, é parte essencial na formação da identidade familiar/nacional de Portugal. A identidade é a memória coletiva, na qual determina as características de um povo, ou de uma família. A história da velha lenda da Dama do Pé de Cabra ou de Dona Marinha vem tratar da origem de famílias nas quais se constituíram a partir da união de um cavalheiro com uma mulher desconhecida e sobrenatural. Nesse sentido, muito mais do que um documento histórico, o registro tem como intuito determinar a identidade das famílias e por consequência de parte da nação. O casamento de um cavalheiro cristão com uma mulher “extraterrestre” fundamenta aos olhos dos homens, por exemplo, o poder daquela linhagem de pessoas, sua origem sobre-humana, sua prosperidade e importância social, o viés regenerador do cristianismo, etc.

Portanto, os livros de linhagens atuam de maneira bilateral, ao mesmo tempo que garantem historicamente a linhagem das famílias, eles fundamentam a grandiosidade e o poder das mesmas, mostrando o viés céltico e sobrenatural, e de maneira simultânea, o triunfo do cristianismo sobre o paganismo.


Auto da Barca 

Fidalgo (D. Anrique): Este personagem representa os nobres da época, muitas vezes mergulhados nos prazeres terrenos. Na sátira, há uma representação caricatural que evidencia a opressão dos mais fortes, a tirania e a presunção sobre a maior parte da sociedade moderna. Ao mesmo tempo, e servindo de pano de fundo, há um contexto que favorece todo esse questionamento. Através da Reforma e das Grandes Navegações o mundo se expandiu, tanto geograficamente quanto em mentalidade, a partir disso, o poder nas mãos de alguns passa a ser altamente questionado.

O Auto, é uma crítica dentro de um século de críticas. D. Anrique ao afirmar que deixou pessoas rezando por ele e depois dizer ao anjo que o deixe entrar pois ele é um nobre fidalgo, mostra a ideia distorcida da classe, em que o rei deveria ser salvo simplesmente por ser rei, pelo seu poder ele teria o “direto”. Possivelmente, esta ideia seja um produto deformado do conceito do direito divino, onde entende-se que há um fundamento divino (a escolha de Deus) para se obter o poder, entretanto a sociedade não aceitava mais arbitrariedades.

Por fim, o rei faz suas lamentações, o que corrobora o que já foi afirmado– representando toda a classe – sua desfigurada concepção de vida. Portanto, entende-se as máximas: o status social não salva ninguém na vida e no pós vida; a salvação não é um direito, mas um dever e os prazeres dessa vida são contrários ao amor.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Análise da Obra de Arte: Primeira Missa no Brasil - Victor Meirelles

O quadro possui o nome de “Primeira Missa no Brasil” e é considerado a primeira grande obra do pintor brasileiro Victor Meirelles. A tela foi produzida entre 1859 e 1861 em Paris e possui 9m² – 2,68 x 3,56 m. O quadro foi realizado a partir da carta de Pero Vaz de Caminha e inspirado, de certa forma, na Obra de Emile Jean Horace Vernet, intitulada "A primera Misa na Cabília”, região montanhosa no norte da Argélia. A obra conferiu conferiu a Meirelles o grau de cavaleiro Imperial da Ordem da Rosa e o cargo de professor honorário da Academia de Belas Artes, hoje Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro. A pose – ou gesto – literalmente central da obra é o momento em que, segundo a fé cristã católica, o sacerdote ergue o cálice com vinho e o abaixa como Sangue de Cristo. A análise será feita dentro da perspectiva cristão católica do quadro, não me referindo ao que aconteceu historicamente, mas apenas as informações que estão dadas na obra. Quando Frei H...

A Estética de Deus

. Muitos erros cometi Crendo ter encontrado lá Muitos erros eu cometi Crendo ver já Confundi os sentidos Com a própria Presença Confundi os amigos Com a própria Crença Confundi lugares Permiti o adeus Confundi lares Com a presença de Deus A irmã solidão me encontrou Tive acesso a um miserável coxo Dentro, Este me falou É só estética, é só gosto Os sentidos confundi Tentei voltar Muitos erros, regredi Corri até lá O passado, o calar A permissão, o adeus Finalmente, verbalizar: Confundi, Deus

Resumo: Introdução à Poesia Oral (1ª Parte) - Paul Zumthor

Neste resumo, pretende-se analisar a primeira parte do livro Introdução à poesia oral – especificamente: 2.Precisando - que trata, basicamente, da relação, ou “confronto”, de oralidade e escritura dentro de noções conceiturais, sociais e literárias. Paul Zumthor inicia o texto apontando a incerteza semântica referente aos termos folclore e cultura popular. Ele faz um pequeno percurso histórico mostrando e questionando – o reducionismo – a respeito da hermenêutica tratada. Por fim, o autor conclui que as concepções percorridas não o satisfazem em totalidade, porém indica algo, vago, mas que em sua concepção é inquestionável: grande parte das sociedades vivenciam tensões culturais, no âmbito “classista”, onde a oprimida detêm a função de desalienação da tradição e reconciliação do homem com o homem e com o mundo, se opondo assim a classe opressora. Novamente, percorrendo considerações de outros autores, infere-se que as tentativas de classificação – distinguindo (temporalmente, ...