Livro de Linhagens
Os Livros de Linhagens constituem um documento de relações genealógicas de membros de famílias nobres, porém, os mesmos não se reduzem a essa função. O impacto das narrativas no imaginário popular – social, cultural e histórico - inserem marcas nas pessoas, mais especificamente, a narrativa mítica, por exemplo, é parte essencial na formação da identidade familiar/nacional de Portugal. A identidade é a memória coletiva, na qual determina as características de um povo, ou de uma família. A história da velha lenda da Dama do Pé de Cabra ou de Dona Marinha vem tratar da origem de famílias nas quais se constituíram a partir da união de um cavalheiro com uma mulher desconhecida e sobrenatural. Nesse sentido, muito mais do que um documento histórico, o registro tem como intuito determinar a identidade das famílias e por consequência de parte da nação. O casamento de um cavalheiro cristão com uma mulher “extraterrestre” fundamenta aos olhos dos homens, por exemplo, o poder daquela linhagem de pessoas, sua origem sobre-humana, sua prosperidade e importância social, o viés regenerador do cristianismo, etc.
Portanto, os livros de linhagens atuam de maneira bilateral, ao mesmo tempo que garantem historicamente a linhagem das famílias, eles fundamentam a grandiosidade e o poder das mesmas, mostrando o viés céltico e sobrenatural, e de maneira simultânea, o triunfo do cristianismo sobre o paganismo.
Auto da Barca
Fidalgo (D. Anrique): Este personagem representa os nobres da época, muitas vezes mergulhados nos prazeres terrenos. Na sátira, há uma representação caricatural que evidencia a opressão dos mais fortes, a tirania e a presunção sobre a maior parte da sociedade moderna. Ao mesmo tempo, e servindo de pano de fundo, há um contexto que favorece todo esse questionamento. Através da Reforma e das Grandes Navegações o mundo se expandiu, tanto geograficamente quanto em mentalidade, a partir disso, o poder nas mãos de alguns passa a ser altamente questionado.
O Auto, é uma crítica dentro de um século de críticas. D. Anrique ao afirmar que deixou pessoas rezando por ele e depois dizer ao anjo que o deixe entrar pois ele é um nobre fidalgo, mostra a ideia distorcida da classe, em que o rei deveria ser salvo simplesmente por ser rei, pelo seu poder ele teria o “direto”. Possivelmente, esta ideia seja um produto deformado do conceito do direito divino, onde entende-se que há um fundamento divino (a escolha de Deus) para se obter o poder, entretanto a sociedade não aceitava mais arbitrariedades.
Por fim, o rei faz suas lamentações, o que corrobora o que já foi afirmado– representando toda a classe – sua desfigurada concepção de vida. Portanto, entende-se as máximas: o status social não salva ninguém na vida e no pós vida; a salvação não é um direito, mas um dever e os prazeres dessa vida são contrários ao amor.
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